Chamada na home do Ig hoje: Preta Gil ameaça fazer strip-tease e anima festa de estilista.
O uso do verbo ameaçar está perfeito neste caso, não?
Os esquifes criativos que a Vic Fearn & Company fabricou na última década foram inclusive exibidos na exposição itinerante Crazy Coffins.
A mostra também virou livro do museu de Arte Sepulcral, em Kassel, na Alemanha, e continua atraindo interesse tanto de futuros clientes quanto de estudiosos.
O primeiro caixão temático da Vic Fearn & Co. surgiu em 1990, quando uma ilustradora encomendou um caixão simples para a mãe falecida e o decorou com flores e um veado mirando do alto de um monte.
O diretor da companhia, David Crampton, disse que quando começaram a ser produzidos estes caixões, os concorrentes acharam que era maluquice. Mas o tempo provou que os criadores de Crazy Coffins estavam certos.
O esquife causou sensação na Grã-Bretanha e hoje é considerado o precursor de idéias muito mais arrojadas, como o caixão em forma de guitarra encomendado pela família de um adolescente que morreu em um acidente doméstico e adorava tocar o instrumento.
Até os funcionários se sentem incentivados. O carpinteiro George Spence disse que até se diverte com os caixões diferentes que tem que fazer. Os convencionais "acabam dando monotonia".
Eu tive acesso uma vez a uma lista de "atrizes / modelos / apresentadoras de programa", não só da Globo, com os respectivos telefones e cachês aproximados cobrados como "acompanhantes". A lista era de um bambambã envolvido em grandes investimentos em uma das bolsas. A notícia abaixo é só um gancho maldoso que eu fiz pra tecer este comentário.
A vida imita a arte? Tá na Folha de hoje:
Preso sem nome e sem fala intriga Justiça
por LAURA CAPRIGLIONE, DA REPORTAGEM LOCAL
Com os olhos arregalados, X emite um íííííí agudo, ao ser perguntado sobre seu nome. Preso no dia 16 de janeiro deste ano no 91º Distrito Policial (que fica ao lado do Ceagesp de São Paulo), depois de invadir o imóvel vazio pertencente a um policial civil, X não fala, não parece conhecer linguagem escrita ou falada, não se comunica por sinais nem por mímicas.
X não tem nome ou número de inscrição no Instituto de Identificação Ricardo Gumbleton Daunt, órgão que expede carteiras de identidade em São Paulo. Também não tem registro criminal. X não existe oficialmente. Mas está preso há três meses em companhia de 36 homens que se espremem em quatro celas escuras, onde só caberiam 24 pessoas.
Ninguém sabe o que fazer com X. No dia 6 de março, X foi levado até o Fórum da Barra Funda, para ser interrogado sobre o que fazia na casa do policial. Os policiais que o prenderam dizem que ele preparava-se para roubar esquadrias de alumínio das janelas, para revender.
A juíza encarregada do caso, Fernanda Galizia Noriega, da 7ª Vara Criminal, pediu a intervenção de um intérprete, que tentou se comunicar com X por intermédio de "todas as formas de comunicação, inclusive a gestual, a mímica e a leitura labial", conforme o registro judicial. X não respondeu a nenhuma abordagem, mas, colaborativo, até concedeu repetir alguns gestos do intérprete.
Ciosa do rito, a juíza ainda endereçou ao defensor encarregado do caso e ao promotor o questionamento: gostariam de reperguntar algo a X? Os dois declinaram. "Não existe nenhuma forma de comunicação com o réu", registrou Noriega.
Sem visitas
"Eu nunca vi um caso como este", diz Anselmo Guarnieri, 44, chefe dos investigadores do 91º DP, policial civil há 22 anos. "Ele é um enigma. Um homem sem nome, sem história, sem conhecidos. Desde que foi preso, não recebeu nenhuma visita. E ninguém registrou desaparecimento de amigo ou parente com as características dele", diz o policial, para quem X tornou-se um "dilema para a Justiça". "Como condenar alguém que não se sabe quem é?"
Os policiais do 91º DP providenciaram no dia 2 de fevereiro intérpretes de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais), para tentar comunicar-se com X. Nada. No dia seguinte, um representante da Feneis (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos), Neivaldo Augusto Zovico, foi chamado para tentar contato. Nada.
Sujaram os dedos de X com tinta, para comparar suas impressões digitais com os milhões de registros civis e criminais que a polícia mantém. "Pesquisa negativa" escreveram em seu prontuário. Quer dizer, digitais como as de X nunca foram vistas antes.
"Já fomos à favelinha aqui ao lado do Ceagesp, perguntar se alguém conhecia o "Mudinho". Mas, sabe como é, mesmo a gente querendo ajudar, na favela é sempre a regra ninguém-sabe-ninguém-viu", diz Guarnieri. "Tomara que, publicando a foto dele no jornal, algum parente se apresente."
O investigador diz que terá de ser providenciada uma identidade criminal para X. "Quem sabe até o batizemos." Depois, se conseguirmos identificá-lo por seu verdadeiro nome, corrigem-se os registros", cogita.
Segundo o artigo 259 do Código de Processo Penal, "a impossibilidade de identificação do acusado com o seu verdadeiro nome ou outros qualificativos não retardará a ação penal, quando certa a identidade física". A "identidade física" de X os policiais que o prenderam dizem conhecer. Dizem que era ele o homem encontrado na casa pertencente ao policial civil.
Ontem, até os outros presos tentavam ajudar, aflitos com o destino do homem sem nome que apareceu do fundo da carceragem para encontrar a reportagem da Folha.
Branco, 1,60 metro, magro, idade entre 28 e 32 anos, cabelo e barba curtinhos (raspados em janeiro, quando da prisão), camiseta regata azul, limpo, calça preta e chinelos, X fez um ííííí, ao ser perguntado sobre sua mãe.
Um preso fez um gesto, como se embalasse um bebê, e apontou para X que, sorrindo, levantou as mãos acima de sua cabeça. Outro preso traduziu: "A mãe morreu. Está no céu".
A advogada Vitória Nogueira, 60, da Acrimesp (Associação dos Advogados Criminalistas de São Paulo), que assumiu a defesa de X na última sexta-feira, pretende conseguir um habeas corpus para libertar o rapaz. "É uma crueldade manter presa uma pessoa nessas condições por mais de três meses, sem direito a visita, a roupas limpas. Nem ao menos alegar inocência ele pode", diz.
Para a advogada, a denúncia contra X não enuncia os bens que ele teria tentado furtar. "É uma denúncia inepta", diz.
Recebi uma mensagem no post abaixo fazendo um comentário sobre o meu comentário no blog da soninha. Creio que a pessoa achou que a palavra de 4 letras era um impropério, um palavrão qualquer que tem 4 letras. Mas não é. Só quero deixar claro isso. A palavra que eu me referi começa com J, e não com P ou F... Quem ler entenderá - como eu seu que a vereadora entendeu.
[Karlmarx Steinhorst (Santa Cruz do Sul-RS)]
E daí, meu chapa! já que pediste vou atirar a "primeira pedra". Lá vai: Mostre que tu tem coragem e não tem medo de intimação. Felizmente, apesar do PT e outros esquerdismos, ainda temos liberdade no Brasil. Diga, então, qual é aquela palavrinha de "4 letras" para definir o Judiciário. Eu tenho uma de 5 letras para definir o Lula e o PT e vou dizer: BOSTA.
PS.: Não sou petista e nem filiado a algum partido, e quem me conhece sabe onde trabalho - nada menos petista que ser assessor de quem sou...
PS. 2: Voto em pessoas e em propostas, e não em ideologias. Isso funciona bem nos EUA, onde a política é muito antiga, e não aqui na república das bananas, onde as eleições diretas engatinham. Lá você é Republicano ou Democrata - e o resto nem consegue se manter. Aqui não há isso, temos alguns grandes partidos: PT, PSDB, PMDB, PR (ex-PL) e DEM (ex-PFL). E médios como PPS e PDT. E muitos nanicos...
Eu sei que pego pesado nos artigos/notícias que coloco aqui, mas juro que todos eles me interessam. Eu sou um curioso nato e adoro ler notícias. E quanto mais estranha ou desafiadora, melhor. Vai uma deliciosa abaixo, retirada da Folha.
Tribo do Amazonas causa guerra na lingüística
CLAUDIO ANGELO
Editor de Ciência da Folha de S.Paulo
Uma tribo de caçadores-coletores do sul do Amazonas está colocando lingüistas e antropólogos em pé de guerra. Segundo um pesquisador, a língua dos pirahãs, um grupo de 350 pessoas que habitam o rio Maici, perto da divisa com Rondônia, é tão excepcional que põe em xeque a principal teoria vigente sobre a linguagem humana. A tese, no entanto, é contestada por outros lingüistas.
Os pirahãs ficaram famosos entre os acadêmicos devido ao trabalho do americano Daniel Everett, 55, um ex-missionário cristão que hoje é professor da Universidade Estadual de Illinois. Ele começou a estudar a língua da tribo nos anos 1970, com o objetivo (que nunca foi cumprido) de catequizá-los.
Enquanto aprendia a língua, vivendo numa aldeia pirahã com a mulher e os filhos, Everett descobriu uma série de peculiaridades no idioma. Os pirahãs não têm palavras para cores. Usam apenas oito consoantes e três vogais. Não possuem mitos de criação, não têm tempos verbais, não fazem arte e só sabem contar até três.
Em 2005, Everett publicou no periódico "Current Anthropology" um artigo no qual afirmava também que a língua pirahã não tem recursividade, ou seja, a capacidade de formar sentenças encaixando uma frase na outra. Assim, um pirahã seria capaz de dizer "a canoa de João", "o irmão de João", mas nunca "a canoa do irmão de João". Como vivem numa sociedade extremamente simples, onde o que conta é a experiência imediata (o aqui e agora), os pirahãs, argumenta Everett, têm sua língua (e, portanto, seu pensamento) limitados pela cultura --um caso único.
O trabalho caiu como uma bomba no meio lingüístico. Se Everett estivesse certo, o idioma pirahã seria um sério desafio à teoria da Gramática Universal. Desenvolvida pelo influente lingüista americano Noam Chomsky, a teoria afirma que todos os seres humanos possuem uma faculdade inata da linguagem, uma espécie de "órgão da linguagem" no cérebro. Essa capacidade independeria do meio cultural, tendo sido impressa nos circuitos cerebrais do Homo sapiens pela evolução. E a principal marca dessa faculdade é justamente a recursividade.
Uma exceção a essa regra significaria ou que os pirahãs não são humanos ou que o arcabouço intelectual chomskiano --sob o qual se formaram gerações de lingüistas-- está falido. Everett, é claro, aposta na segunda hipótese.
Bombando
A tese de Everett sobre como a chamada "experiência imediata" limita a competência lingüística dos pirahãs saiu do domínio da academia na semana passada e se espalhou como rastilho de pólvora na imprensa popular. Uma reportagem de 20 páginas intitulada "O Intérprete -- Será que uma tribo remota da Amazônia virou do avesso nossa compreensão da linguagem?" foi publicada na prestigiosa revista americana "The New Yorker" e citada por jornais on-line, revistas e blogs nos EUA e no Brasil.
No entanto, no final do mês passado, antes de a "New Yorker" ir para a banca, um trio de lingüistas dos EUA e do Brasil postou no site especializado LingBuzz um artigo contestando ponto a ponto o trabalho de Everett. Andrew Nevins, da Universidade Harvard, David Pesetsky, colega de Chomsky no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e Cilene Rodrigues, da Unicamp, afirmam --com base em trabalhos anteriores do próprio Everett — que o pirahã não apresenta desafio à Gramática Universal.
CRISTINA AMORIM
free-lance para a Folha de S.Paulo
Uma pesquisa feita no Brasil por um cientista americano deve esquentar um debate corrente entre lingüistas: o idioma que se fala determina a natureza e o conteúdo do pensamento?
De acordo com Peter Gordon, da Universidade de Columbia (EUA), que assina o estudo, na edição de hoje da revista "Science" (www.sciencemag.org), a resposta é afirmativa no caso dos pirahãs, índios que levam uma vida seminômade no Amazonas e que mantêm isolamento da sociedade brasileira. Com base em viagens que fez à região, ele tentou definir se pessoas inseridas em sociedades com sistemas numéricos imprecisos, expressos em poucas palavras, conseguem realizar tarefas proporcionalmente complexas.
Muitas culturas usam os dedos das mãos como base para um sistema decimal. Outras se baseiam em uma contagem binária: 1, 2, 1 e 2, 2 e 2, 2 e 2 e 1, assim por diante. Porém, todas as estruturas lingüísticas estudadas do mundo, das mais complexas às mais simples, contêm palavras que indicam quantidades numéricas.
Os pirahãs utilizam um sistema numérico expresso em três palavras: "hói", que significa "um"; "hoí", usado para dois; e "baagi" e "aibai", aplicado para determinar "muitos". "Hói" também pode ser usado para "cerca de um" ou "um punhado".
Na tribo, o pesquisador promoveu uma série de atividades. Em uma das experiências, os participantes (seis homens e uma mulher adultos) tinham de repetir padrões simples: de um lado, Gordon desenhava uma série de linhas ou enfileirava pilhas. Do outro, eles repetiam a ação.
Quando trabalhavam com apenas uma ou duas linhas, os pirahãs cumpriam a tarefa com facilidade.
O panorama mudava quando mais itens eram incluídos no jogo. Os pirahãs deixavam não apenas de contar, mas de desenhar também --apesar de se esforçarem para cumprir as tarefas, emitindo suspiros prolongados, como notou o cientista. Mesmo em atividades realizadas diariamente, os índios tiveram dificuldade em diferenciar quatro de cinco peixes, por exemplo.
Na média
Os índios amazônicos cumpriram relativamente bem as tarefas, assim como estudantes do ensino médio se saem bem ao resolver equações acima de seu nível.
A pesquisa de Gordon, no entanto, mostra que os pirahãs fazem "aproximações" para quantidades acima de três --mesmo quando não havia palavras para expressar os números.
O caso dos pirahãs mostra que a linguagem pode ser incomensurável, ou seja, pode conter conceitos impossíveis de ser traduzidos de uma língua para outra. "Essa característica poderia limitar o pensamento, mas também é possível que alguns conceitos sejam independentes", disse Gordon à Folha. De acordo com ele, o mesmo perfil pode ser encontrado em aborígenes na Austrália e em algumas tribos na África.
"Por outro lado, a língua pirahã é particularmente complexa, especialmente com relação à estrutura verbal", afirma. Para o pesquisador, isso significa que o desenvolvimento da cultura não está ligado à complexidade da linguagem, mas que a função cognitiva pode ser reprimida.
"O estudo", diz, "apenas fornece pistas sobre como a quantificação pode estar relacionada a uma vida que exige os números". Em última instância, que as palavras só surgem quando necessárias.que o pirahã não apresenta desafio à Gramática Universal.
da Folha de S.Paulo
No trabalho "A Excepcionalidade do Pirahã: uma reavaliação", os lingüistas compararam o pirahã com várias línguas e descobriram que o idioma, longe de ser um "caso excepcional", tem semelhanças com o alemão, o bengali e o chinês.
A suposta matemática única dos pirahãs, afirmam, é compartilhada por outras tribos da Amazônia, como os xetás (até mesmo o tupi tinha um sistema de contagem limitado), que só contam até três. E há, sim, evidências de recursividade.
Além disso, Everett tem despertado a fúria de antropólogos e lingüistas brasileiros, que o acusam veladamente de "monopolizar" os pirahãs, restringindo o acesso de outros às aldeias, e de pesquisar sem autorização da Funai (Fundação Nacional do Índio) --o que a sede da Funai confirma.
"No cerne disso tudo há uma confusão sobre o que é a Gramática Universal", disse David Pesetsky à Folha. "Acho que Everett confundiu a teoria de Chomsky, Hauser e Fitch", afirmou, referindo-se à sua reformulação, que Chomsky publicou em 2003 juntamente com Marc Hauser, de Harvard, e Tecumseh Fitch, da Universidade St. Andrews (Escócia).
"O fato de não se poder dizer em pirahã 'A canoa do irmão de João', por exemplo, existe em alemão. Everett diz que esse fato em pirahã se deve à cultura extremamente limitada, mas os alemães não têm essa limitação cultural. Eles navegam na internet. Então, o fato em alemão não se deve à cultura."
Sem elaboração
Rodrigues afirma que Everett "não tem uma teoria e sim uma hipótese", que padece de uma "falta de elaboração teórica". "A experiência imediata, para nós, é uma forma que ele encontrou de colocar todas as observações que ele acha interessantes no mesmo saco. Isso é cientificamente frágil", disparou. "E, se fosse assim, por que a limitação cultural só influencia a linguagem e não outras partes do sistema cognitivo, como a visão?" --questiona.
Everett publicou no mesmo Lingbuzz uma resposta a Rodrigues e colegas, a quem chama de "lingüistas de gabinete". Também os acusa de ter usado seus escritos de 20 anos atrás para refutar sua tese.
"Não há evidência em pirahã de recursividade", disse Everett à Folha, por e-mail, num português perfeito. "Além do mais, o Chomsky nem define bem o que ele quer dizer com isso --muito menos o Fitch, que foi comigo para a aldeia."
Everett, que tem visto de residente permanente no Brasil, diz que sempre pesquisa com autorização "do delegado da Funai de Porto Velho" e que sempre estimula, não impede, que outros visitem a área. "No entanto, os pirahãs quase não falam português e eu sou o único pesquisador secular que já aprendeu a língua deles."
Tecumseh Fitch diz que a questão ainda está aberta. "[Mas] é um truísmo que a cultura molda a linguagem. É por isso que o brasileiro tem a palavra 'samba' e o escocês tem a palavra 'haggis'. E daí? As implicações disso para a Gramática Universal são nulas." Ele continua: "Everett, como muitos críticos de Chomsky, tem uma concepção própria da Gramática Universal, contra a qual ele se bate". Mas seus dados "são tão convincentes quanto a falta de evidência pode ser _ou seja, não muito".
Reproduzo na íntegra a matéria do Terra Magazine sobre o novo livro do Luís Nassif. Vale ficar de olho nos desdobramentos.
Para Nassif, criadores do Real buscaram enriquecer
Daniel Bramatti
Às vésperas do lançamento oficial do Plano Real, em 1994, o então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, assegurava publicamente que haveria paridade entre a nova moeda e o dólar. Não foi o que aconteceu. O real entrou em cena valendo mais que a moeda norte-americana, e sua cotação subiu ainda mais com o passar do tempo. As conseqüências da sobrevalorização foram desastrosas: explosão das importações, déficit em conta corrente e desaceleração da economia, em razão da necessidade de manter juros altos para atrais capitais especulativos.
Para o jornalista Luís Nassif, não houve um simples erro na condução da economia na época, mas uma "operação de mercado". Ele vê uma ação deliberada dos formuladores e implementadores do plano com o objetivo de beneficiar a si próprios e a grupos aliados. "Eles tomam um conjunto de medidas técnicas cuja única lógica foi permitir enormes ganhos para quem sabia para onde câmbio ia caminhar. E o grande vitorioso desse período é o André Lara Rezende, que é um dos formuladores dessa política cambial", disse Nassif, em entrevista a Terra Magazine.
A interpretação do jornalista sobre a formulação e a crise do Plano Real está no recém-lançado livro "Os Cabeças-de-Planilha - Como o Pensamento Econômico da Era FHC Repetiu os Equívocos de Rui Barbosa". No livro, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirma que as reclamações contra a alta carga tributária no país são "choradeira" (leia aqui).
Leia a seguir trechos da entrevista.
No livro o sr. fala que a preocupação com o câmbio existia na preparação do Plano Real e que isso sumiu logo adiante.
Esse é o ponto central. Às vezes um grande erro pode ser atribuído a uma cegueira teórica, o economista fica prisioneiro de uma determinada teoria que ele defende. Comecei a prospectar as razões desse erro de partida do Plano Real, que foi um erro crasso. Dois meses depois o país já estava com déficit em conta corrente e, em março de 2005, o Brasil teve de parar todo o processo de crescimento. Eu tentei entender a lógica desse pessoal para ver se foi um erro teórico, e nada indicava isso. Eles eram muito preparados e muito competentes para ser um erro teórico um desastre daquelas proporções. E depois do desastre eles insistiram no erro. Quando foram divulgados os planos preliminares do Real, quando eles começam, um ano antes, a discutir o plano entre si, ficou claro que eles tinham percebido todos os riscos decorrentes da decisão que tomaram. Então por que tomaram?
E qual é a resposta?
Vou buscar a explicação para isso lá atrás, em Rui Barbosa, sabendo que um grande especialista em Rui Barbosa era o Gustavo Franco (presidente do Banco Central no governo FHC). Algumas vezes na história de um país você tem chance de remonetizar a economia, ou seja, de injetar dinheiro na economia. Essa chance dá um poder muito grande de manipulação para quem tem as ferramentas na mão. Dependendo da maneira como você define como se dá a monetização, você está elegendo os novos vitoriosos da economia. Lá atrás, por conta da abolição da escravatura e da vinda dos imigrantes, era necessário fazer a remonetização. E o Rui Barbosa faz privilegiando um aventureiro, que era o Conselheiro Mairink. Ele dá uma tacada e beneficia o conselheiro. Só que essa tacada tem desdobramentos que o acabam amarrando-o a um conjunto de medidas para poder dar sobrevida aos desequilíbrios provocados pela primeira tacada e que acabam comprometendo toda a política dele e jogando o país na crise do Encilhamento.
Quando você olha para julho de 1994, toda a lógica do Plano Real era que começaria com um dólar valendo um real. Diziam que era o primeiro plano em que não haveria surpresa. De repente os economistas ficam donos do pedaço, porque o Fernando Henrique Cardoso sai do Ministério da Fazenda para se candidatar, entra o Ricupero e pega o bonde andando, sem muita noção das tecnicalidades do plano, e eles tomam um conjunto de medidas técnicas cuja única lógica foi permitir enormes ganhos para quem sabia para onde o câmbio ia caminhar. E o grande vitorioso desse período é o Andé Lara Rezende, que é um dos formuladores dessa política cambial.
Na sua opinião, houve um fator deliberado de busca de enriquecimento?
Eu não consegui ver outra lógica. Você pode dar uma vestimenta ideológica, que o Rui Barbosa tentou dar, dizer que eles estavam tentando fortalecer uma nova classe de empreendedores e banqueiros internacionalizados que iriam modernizar o país com esse poder que ganharam com a monetização. Eles podem dizer que é isso. O ponto objetivo é que eles eram ou os banqueiros ou se tornaram sócios dos banqueiros. E o ponto central é que nem o ministro da Fazenda foi informado sobre aquela apreciação cambial.
Existe alguma prova que aponte quem enriqueceu com essa grande tacada?
O banco Matrix ganhou centenas de milhões de dólares naquele período. O Matrix é do André Lara Resende. E outros bancos de investimento ganharam. Quando você pega o Encilhamento, do Rui Barbosa, você dá o direito de liquidez, de emitir moeda, para um determinado banco. A liquidez em si garante uma certa riqueza, mas, com um ambiente especulativo, essa riqueza pode ser multiplicada. No tempo do Rui Barbosa era a Bolsa de Valores e o mercado de câmbio. No Real era o mercado futuro de câmbio, o mercado de derivativos. No que consistia o jogo: fazer uma aposta na apreciação do real e ficar na ponta vendida do mercado. Só que, para que desse certo, era preciso afastar os grandes bancos desse jogo. Porque se o câmbio começasse a cair muito, os grandes bancos, que tem acesso a linhas de crédito em dólar, poderiam entrar forçando do lado dos comprados. Eles afastaram os grandes bancos definindo uma flutuação de mais 15%, menos 15%, que criava um fator de risco muito grande. Os bancos comerciais não iam entrar porque corriam risco de descasamento entre ativo e passivo. Então ficam no jogo os bancos de investimento - um grupo de bancos de investimento que têm reuniões alguns meses antes do Real - e, do outro lado, um conjunto de empresas que queria comprar dólar para hedge. Essas empresas apostavam que o dólar poderia ir até a R$ 1,08. Com o modelo que eles adotaram, aquela taxa de juros violenta, e o Banco Central garantindo que o dólar não passaria de R$ 1, criou-se todo um ambiente para a apreciação do câmbio. Na primeira tacada ele vai para R$ 0,90 e os vendidos ganham um horror.
Da noite para o dia.
Da noite para o dia. A segunda tacada é quando vem para R$ 0,80. Daí começam a surgir dois fatos imprevistos no horizonte. O primeiro é que o déficit em conta corrente veio muito mais rapidamente do que eles previam. Com esse déficit em conta corrente cria-se uma pressão, um burburinho dos comprados para desvalorizar o real. E você vê um conjunto de declarações (na equipe econômica) de que o câmbio deveria estar em R$ 0,70, e na época a gente não entendia. O próprio Persio Arida diz: "Esses caras enlouqueceram". Qual era a lógica por trás disso? A única lógica era o medo de que houvesse uma reação dos comprados. Alguém pode falar que eles estavam com medo de haver uma desvalorização e o descontrole da inflação. Ora, mas não poderia ter ocorrido o movimento anterior de apreciação do real. Não tinha lógica o movimento anterior, pela própria teoria de criação do real, que era criar a URV e deixar seis meses para que os preços se alinhassem e entrar com a troca de moedas sem choque de nenhuma espécie.
Em resumo, o sr. descreve um quadro em que um grupo desperdiçou uma janela de oportunidade em razão de objetivos próprios e até escusos, sendo que quem pagou a conta foram todos os brasileiros...
É, o país pagou a conta dez anos depois. No ano passado, o Pedro Malan fez um artigo em que dizia "nós fomos vitoriosos". Nós quem? Mataram uma chance de mudança extraordinária e conseguiram avacalhar o conceito de modernização, que é confundido hoje com eliminação de emprego. E é um trabalho que continua com Lula e Palocci.
Os cabeças-de-planilha continuam por aí?
Ah, continuam. Depois que se cria uma apreciação cambial, só uma crise para corrigir. Cria-se um grupo de interesses muito grande, todo mundo que pega dinheiro emprestado em dólar quer evitar mudança de câmbio. E ninguém aí agiu por ideologia. A ideologia vem depois do interesse. O grande problema nosso é que a imprensa deixa passar em branco. Doze anos depois de um modelo que fracassou, continua-se defendendo o que não deu certo. Não temos uma inteligência na opinião pública capaz de investir contra clichês flagrantemente falsos em defesa do país. Estamos há 12 anos com essa história de que é preciso fazer a lição de casa e que no ano que vem a gente começa a crescer. Em 1994 as multinacionais estavam reorganizando sua cadeia de produção e começando a realocar empresas, e o Brasil a China eram os dois países mais falados.
Hoje o Brasil é o que é, e a China é o que é.
Exato. Essa conta comprometeu o futuro do país inexoravelmente. A gente não perdeu só dez anos de crescimento, a gente perdeu a maior chance da história.
Há quem acuse o então presidente Fernando Henrique Cardoso de, mesmo constatada a inviabilidade da paridade real-dólar, ter segurado a desvalorização para garantir sua reeleição, fazendo com que a conta ficasse ainda mais amarga. Qual a sua avaliação?
O último capítulo do livro é uma entrevista com o Fernando Henrique. Ele fala que pensou - só pensou - em falar com o Itamar para pedir uma desvalorização (em 1994). E em 1996, por que não mudou o câmbio, se os indicadores mostravam que a situação era insustentável? Ah, porque não tinha pressão, e sem pressão a gente não consegue mudar. Isso aí não é posição de estadista. Um estadista percebe o que vem pela frente e convence a opinião pública de que é preciso fazer mudanças.
Deu no nonsensenominimo:
Prêmio literário
Saiu o resultado do prêmio de título de livro mais estranho do ano, promovido pela revista britânica “The Bookseller” e divulgado aqui. E o vencedor é… “Os Carrinhos de Supermercado Perdidos do Leste da América do Norte”. Bateu os prediletos da coluna: “Montanhesas Tatuadas e Caixas de Colheres do Daguestão” e “Quão Verdes Eram os Nazistas?”.
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