Voltaire de Souza

Retirado daqui.

Gosto refinado

Cemitérios sugerem tristeza e desolação.
Mas também podem ser centros de arte e cultura.
Estátuas. Urnas. Mausoléus. Mistério e beleza nas profundezas da noite.
O famoso decorador Corrado Neder visitava um tradicional cemitério da cidade.
- Mármore travertino. Papa fina.
Chamou dois ajudantes.
- Leva para a caminhonete. Ah, espera aí.
Corrado descobriu um interessante vitrô no túmulo da Família Soares de Albuquerque.
- Arranca isso também.
O ajudante Vitorino sentia calafrios.
- Seu Corrado... roubar dos defuntos... não é muito certo.
A bronca de Corrado veio em altos brados.
Despertando um morador do mausoléu.
Era o adolescente Nêylon. Sem-teto. E ligado na cultura dark.
A pele morena do rapaz brilhava à luz da lua. O corpo era perfeito. Escultural.
- Gostei. É uma verdadeira estátua. Põe na Kombi e esquece o vitrô.
Vitorino achou melhor obedecer. E Nêylon hoje vive com mais conforto.
Os mortos não saem do lugar. Mas todo mundo pode melhorar de vida.

Copa dos Pesadelos

O Torero, influenciado pela Copa dos Sonhos do Juca Kfuri, criou um campeonato com os piores jogadores. Hoje, em seu blog, ele pede para que os leitores descrevam como foi o Santos X São Paulo. Eu, é claro, aproveitei e escrevi meu texto. Mas, antes, a escalação dos times:

Santos: No gol, o paquidérmico Gilberto; na zaga teremos o asinino Reginaldo Araújo, o rinocerôntico Maurício Copertino, o quelônico Camilo e o pavônico Fricson George. No meio, Marcelo Fernandes e a dupla de música caipiro-nipônica Kobayashi e Maezono. No ataque, Serginho Fraldinha, Demétrius e Edgar Baez (também conhecido como “o que não é aquele”). Miguel Kodja Neto é o presidente e Nelsinho “Só-Tomo-de-Sete” Baptista será o técnico.

O São Paulo terá sua sorte nas mãos do goleiro Alencar, nos pés do zagueiro Wilson, no bico da chuteira de Nem e na cabeça de Paulão Desmaiei-na-apresentação. Os volantes serão Axel e Carabali; os alas: Jura (juro) e Lino, e o armador é Sierra Papai Noel, aquele que chegou de helicóptero. No ataque (ai, ai, ai...): Dill e Rondon. No banco, o presidente Fernando Casal Del Rey e Oswaldo de Oliveira.

O jogo

Torero, o resultado é um horroroso 1 x 1. Nenhum time conseguiu perder, impressionante!

O Santos saiu para o ataque logo de cara, mas Kobayashi e Maezono não conseguiam enxergar um ao outro e sempre erravam a tabelinha.

Aos 15 minutos do primeiro tempo Paulão deu um encontrão em Kobayashi, que reclamou com o juiz que o são-paulino estava fazendo cera no chão quando, na verdade, tinha desmaiado. O árbitro não deixou por menos e expulsou os dois.

Incrivelmente, nenhum dos técnicos mudou o esquema tático, deixando por isso mesmo.

O Sierra teve a melhor chance do primeiro tempo, quando desistiu de passar a bola para os atacantes, que invariavelmente chutavam a gol e acertavam o bandeirinha (que inclusive, depois do terceiro chute, teve de ser substituído). O chute de Sierra conseguiu acertar a bandeirinha que marca a quina do campo.

Na volta do intervalo, os times continuaram os mesmos. O jogo recomeçou e a torcida nem percebeu, pois o cochilo estava ótimo. Ela só acordou aos 30 minutos do segundo tempo, com os gritos histéricos de Nelsinho Batista.

- Não acredito! Não acredito!

Os torcedores também não acreditaram quando olharam para o placar e viram que o Santos abriu 1 x 0 de vantagem, com gol de Edgar Baez. Em entrevista depois do jogo, o "que não era aquele" informou que esse tinha sido seu primeiro gol em toda a carreira. Na verdade, o mérito do gol não foi dele, mas sim do goleiro Alencar, que estava fora do gol tirando água do joelho no momento do chute.

Aos 45 do segundo tempo, Oswaldo de Oliveira já cogitava deixar a profissão de técnico e abrir um salão de cabeleireiro. Foi aí que ele viu Carabali pegar a bola com as mãos e sair correndo em direção ao gol de Gilberto.

Touchdown!

O juiz, que também estava dormindo, valida o gol, aponta para o meio de campo. Acaba a partida.

Na saída do estádio, o único torcedor santista que estava presente (o pai de Gilberto), revoltado, partiu para cima de Fernando Casal Del Rey. A torcida são-paulina, que tinha o dobro de torcedores, aproveitou e também atacou o dirigente. E todos foram felizes para sempre!

Sobriedade

Imagine uma empresa onde o presidente só pode ficar por quatro anos e, se for bem, pode ser eleito de novo e ficar por mais quatro.

A empresa é grande e importante, está entre as principais do país. Ganha muito dinheiro mas também gasta muito e tem dívidas altas.

O novo presidente tem experiência e é bem conhecido. Vem de uma "escola" importante, que já "formou" os principais presidentes das principais empresas do país.

Antes de ser escolhido, ele bateu muito em uma tecla: redução de custos.

Ao assumir o cargo, ele toma uma decisão enérgica sobre a sede da empresa:

- Padronizem todas as cortinas do prédio!

São umas 300 janelas.

Haja sobriedade.

Embalagem

Imagine que um produto conhecido - mas desprezado pelo público, por inúmeros problemas - resolve mudar de nome.

Faz Bem, por exemplo.

Mas a empresa mantém a "qualidade" do produto e a embalagem, só mudando o nome. Digamos que o novo nome do produto é Barraco.

Os funcionários naturalmente chamam a empresa de Faz Bem.

Mas um chefe estressado, que se acha a última bolinha com ar do plástico-bolha, vira para um pequeno grupo de trabalhadores da empresa e proíbe de falar o nome Faz Bem.

E a marca já é Barraco há três meses. Só que no jornal do dia há uma grande reportagem sobre a Faz Bem.

É mais fácil mudar o nome de uma porcaria que começar um projeto novo. Coisas de "empresa".

Coisinha de Deus

Estava eu indo pegar meu carro quando ouço o seguinte diálogo de duas mulheres - não sei o contexto inteiro, mas o texto é verídico:

1) - Você precisa parar de pensar com cabeça de pobre.

2) - Mas eu não tenho cabeça de pobre!

Em seguida, vira-se e diz:

2) Washington, sua peste, pare de correr e volte aqui, menino!

Paulo Henrique Amorim

OK, o cara joga limpo e diz de quem gosta e não gosta no site dele. FHC é o primeiro item da lista.

Só que como fica a ética jornalistica? O cara defende o Lula demais!

Músicas estranhas

As "10 músicas mais malucas" segundo a  Mundo Estranho.

Quem inventou o ranking foi o renomado (e por vezes odiado) jornalista, compositor, tradutor e pesquisador de música popular, humorista e futuro pizzaiolo (como ele mesmo se define em seu blog) Ayrton Mugnaini Jr. (com quem eu trabalhei na Dynamite). Ah, ele também é ex-integrante do Língua de Trapo (o original dos anos 1980) e de Kid Vinil & Magazine.

Vale a pena ler e ouvir.

Mudança

A Executiva Nacional do PFL (Partido da Frente Liberal) aprovou nesta quinta-feira a mudança de nome do partido, que passará a se chamar PD (Partido Democrata).

Você gostou do novo nome?

Acha que isso resultará em profundas mudanças no partido, historicament comandado pelo ACM (que foi o verdadeiro presidente do Brasil no governo FHC)?

É puro golpe de marketing?

E o PSDB deve mudar o nome para Partido Republicano, ficando assim o Brasil uma cópia dos Estados Unidos?

E como ficará o nome do PT? Partido Comunista? Ou Partido Socialista?

E o PSDB nessa, como fica?

Não seria melhor criar o Partido dos Corinthianos / Santistas / Palmeirenses / São-Paulinos / Flamenguistas, já que brasileiro só quer saber mesmo é de futebol?

 

Spoilers

Melhor Filme: "Little Miss Sunshine." Eu adoro a idéia de uma família na qual o filho não pode falar e o avô morre.

Melhor Ator
: Forest Whitaker - "The Last King of Scotland." Ele não só mastigou o cenário, ele comeu o elenco.

Melhor Atriz: Eu escolho a única das concorrentes que é uma verdadeira Americana - Penelope Cruz.

Melhor Ator Coadjuvante: Mark Wahlberg. Eu amo como no final do filme ele mata o Matt Damon. Ops, eu entreguei o final.

Melhor Atriz Coadjuvante
: Sharon Stone - "Basic Instinc II." Indique-a, pessoal.

Melhor Animação: "The Simpsons Movie." "Cars" tem carros falanters, mas nós temos pessoas falantes.

Melhor Música
: Como você pode ir contra o musical mais popular de todos os tempos: "An Inconvenient Truth."

Melhor Documentário: "Jesus Camp." Eu sempre quis saber qual o o sobrenome de Jesus.

Melhor Documentário de Curta Metragem: Quem se importa? Cai fora do meu show. Eu quero mais closes do Jack Nicholson rindo.

O mais inacreditavelmente rejeitado: "Dreamgirls." Eu não posso acreditar que não está concorrendo a melhor filme - especialmente depois de Eddie Murphy ter feito todas as garotas. A única coisa faltando foi o flatulento Granny. Graças a Deus temos um melhor em "The Queen".
Com que roupa eu vou?

Tá todo mundo falando mal da roupa do Dunga. Eu gostei da estampa. Ia dar uma cortina ótima.

O pior é que a filha dele é quem escolhe as roupas do pai. Ela quer ser estilista - ou já está estudando, não sei bem. Ainda bem que ela tem pai rico, pois poderia morrer de fome.

Bom gosto não se compra. Mas no Brasil pra tudo tem um jeitinho...

Aquecimento global

Já faz tempo que eu me conscientizei sobre o iminente fim do mundo. E eu, como uma formiguinha, tento diminuir os impactos que causo na natureza. E decidi que vou tentar diminuir ainda mais.

Infelizmente moro longe do trabalho e teria de pegar três ônibus para chegar aqui. Mas, ao menos, eu dou carona para a minha irmã, fazendo com que ela não venha de carro, e diminuindo a emissão de poluentes.

Por falar nisso, vale a pena ver a animação que acusa a Exxon (Esso) de pagar cientistas para desmentir os dados alarmantes. Chama-se "Toast the Earth". O site Exxon Exxposed, onde tem o vídeo, é bem legal.

Eu evito desperdício de água, só de vez em quando me dou ao direito de um banho demorado. Geralmente quando estou muito estressado e com as costas doloridas.

O Brasil é o país que mais recicla alumínio no mundo, em quantidade e em porcentagem. Mas não é graças a conscientização do povo, mas sim graças à pobreza.

Eu separo o lixo em casa. Tem o orgânico, que o lixeiro leva, e o reciclável, com alumínio, plástico e papel. Eu já deixei para os catadores, que vivem da reciclagem. Mas um deles simplesmente abriu as sacolas e pegou só o que interessava - o alumínio. Hoje levo o lixo até a casa de minha mãe, pois tem umas pessoas que passam lá e aproveitam também o papel e o plástico.

Eu também detesto desperdício de energia.

E a partir de hoje vou usar menos copos descartáveis.

Quem tiver mais idéias de como eu posso colaborar com a Terra me conte.

Páre e pense como fazer com que pelo menos uma geração de humanos ainda viva bem e aproveite o que a Natureza nos oferece.

PS: Não sou ecochato. Sou um cidadão consciente.

Shell

Cada vez tenho menos vontade de fazer coisas. Menos vontade de ver minha família, de ver meus amigos, de sair de casa. Ao mesmo tempo, tenho necessidade de ser abraçado, de conversar, de ser entendido e amado.

O rumo que minha vida tomou está me levando a me fechar em uma concha e não querer sair mais dela.

A vantagem é que aprecio muito a minha companhia - apesar de alguns dias não me agüentar, e encher a cara de cerveja sozinho esperando o dia acabar e chegar a hora de dormir.

Acordar sempre foi um sacrifício, e está mais difícil a cada dia.

Dói a cabeça, doem as costas, dói o coração.

E eu fico arranjando desculpas, fazendo picuinhas comigo mesmo, e me isolo cada vez mais.

Não é fácil se esconder, tampouco o é aparecer.

Viver não é fácil. A máscara que carrego é pesada demais. Por trás do belo sorriso, a tristeza inunda meu espírito.

Não sei se é uma feliz tristeza ou uma tristeza feliz, se é que isso faz alguma diferença.

A necessidade de ser amado e ser aceito me irrita. E irritam-me também os que me amam e me aceitam, pois mesmo me amando e me aceitando, eles não me entendem e não correspondem às minhas expectativas.

Acho que estou precisando apanhar um pouco. Pra deixar de ser besta ou, pelo menos, pra ser um pouco menos besta.

Que alegrias traz o conhecimento?

Que alegrias traz uma cerveja?

Efêmero, tudo é efêmero.

E a concha se fecha cada dia mais. A cada dia mais distante, a cada dia mais solitária. E sem vontade (ou coragem) de mudar.




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