Cacos

O querido André Toledo, do blog Cacos, fez-me imerecida homenagem, escrevendo um texto após ler um pequeno poema meu. Tomo a liberdade e aqui reproduzo suas palavras.

A MOR TE 
 AMO
A MOR TE 
  QUERO
A MOR TE 
  EM MIM
A MOR TE 
  ESPERO

"Um casal de amigos acaba de se separar [e nenhum deles morreu].

Eu adorava a convivência com este casal, me divertia muito com os dois. Ironia e sarcasmo a la carte, pois brigavam sempre [inclusive quando eu estava por perto assistindo no camarote].

Precisei ficar um tempo fora do país e diminui o contato com o casal, até voltar e saber da separação.

Questionei o acontecido:

- E o amor?
- Só podia ser amor porque não era bom nem pra mim nem pra ela."

Texto

O queridíssimo Carlos Heitor Cony fez mais um de seus geniais textos, publicado na Folha. E eu me divirto.

Xama e atensão
Não sou pela correta grafia das palavras nem pela gramática correta; ambas são convenções

Desde que me entendo por gente (e mesmo antes disso), ouço falar em decadência do ensino, baixo nível dos vestibulandos, coisas assim. Como qualquer mortal, também cruzei o gargalo de antanho, quando as provas nada tinham do atual sistema de múltipla escolha. Achei profundamente cretina a redação que me mandaram fazer no exame ("narre um filme que viu recentemente") e desovei duas páginas de papel almaço, veículo então obrigatório para requerimentos, certidões e exames escolares.

O que interessava era o resultado: passei no vestibular sem mortos nem feridos, embora tenha sofrido com o exame de latim, onde o catedrático da matéria recusou minha pronúncia, impondo-me Quíquero em lugar de Cícero.

Num ano dos mais antigos do passado, aqui no Rio de Janeiro, o vestibular unificado provocou pasmo e ira de jornais e educadores. Na prova de redação, alguns alunos escreveram chama com "x", atenção com "s" e massa com "cê" cedilha. A televisão perguntou drasticamente: pode um aluno que escreve "xama", "atensão" e "maça" freqüentar uma universidade?

Ninguém me perguntou a opinião, mas vou dá-la gratuita e escandalosamente: pode. Em princípio, sou contra o tal vestibular unificado, que acredito reduzir a sabedoria humana a uma espécie de loteria esportiva intelectual.

Um rapaz analfabeto de pai, mãe e avoengos pode cursar desde o primário até a extensão universitária acertando sempre nas colunas respectivas (aliás, teve um que tirou o primeiro lugar). Pode formar-se engenheiro sem saber somar dois e dois, ser médico sem saber para que serve o coração, ser professor de geografia sem saber que uma ilha é uma porção de terra cercada de água por todos os lados.

Essa hipótese, matematicamente viável, tem uma probabilidade mínima. Um entendido já me explicou a fórmula; parece que são necessários trezentos bilhões de provas para que um mesmo cidadão, sem nada saber, vá do bê-a-bá até a tese sobre a Teoria do Quanta ou sobre as Influências Medas na Cerâmica dos Persas. Deixa para lá.

Sendo contra a múltipla escolha, não sou pela correta grafia das palavras. E muito menos pela gramática correta. No fundo, gramática e ortografia são convenções mais ou menos abstratas.

Os maiores pensadores do mundo, líderes de povos, eram rutilantes analfabetos: Jesus Cristo e Maomé estão aí para provar. Foram os dois homens que mais exerceram influência sobre a vida e a cultura dos outros homens. E, lembremos, nunca perderam tempo em saber se "cãs" é feminino de cão e "farinha", diminutivo de faro.

Lembro uma confissão autobiográfica de Nelson Rodrigues. Um dia, em meio a uma crônica, deu-lhe um branco total e ele perguntou, em voz alta, se cachorro se escrevia com x ou com cê cedilha.

Até hoje, antes de escrever determinadas palavras (esquistossomose, por exemplo, e nem fui ao Aurélio consultar se estou certo), sou obrigado a pensar fundo, ou, sacrifício supremo, ir até a estante apanhar o ensebado dicionário do mestre.

Na minha situação, acredito, estão milhares de outros escribas que não chegam a ser, exatamente, analfabetos, embora no que me tange e concerne, eu tenha pavorosas dúvidas a respeito. Os leitores também.

Por que chama é com "ch" e não com "x"? O importante não é escrever certo. O furo está mais em cima: é pensar certo. Mas o que é pensar certo? Resposta: é pensar de acordo com a norma.

Por falar em norma, venho observando que os gramáticos estão evitando falar em gramática. Têm preferido falar em norma, citar a norma como fonte da verdade e da beleza da língua.

Não faz muito, estarreci alguns professores defendendo a expressão popular "um chopp e dois pastel". No meu entender, a frase é perfeita não pela norma, mas pela ontologia do pastel; não existem "pastéis", existe pastel, que todo mundo sabe o que é. Dois pastéis é uma redundância que o bom gosto literário aconselha evitar.

Sei que essa crônica será considerada um atentado à norma. Chamo a atenção para tudo que foi inventado e fez a Humanidade sair das normas e chegar ao ponto a que chegou -com gente pedindo "um chopp e dois pastel" e "xamando a atensão para os erros da maça".

Não estou inventando uma linguagem, como fizeram Guimarães Rosa e Glauber Rocha, estou apenas registrando a falência das normas em relação ao uso do mundo e dos povos.

Filmes

Lilo & Stitch 2 (2005)

O primeiro já não é grande coisa. Esse é pior ainda. Se você tirar as cenas desnecessárias, mal sobra história, pois o filme tem meros 68 minutos. Pq a Disney insiste em fazer seqüências de filmes que não foram exatamente sucessos? Se continuar assim, animações da Disney deixarão de ser referência de qualidade em breve.

Munique (2005)

Ai, ai, ai... Esse Steven Spielberg já perdeu a noção do que faz há tempos. Desde 1993.

O tema é bacana e o filme, claro, é bem-feito. Com dinheiro, até diretor ruim consegue. Mas não tem nada que se destaque.

São 168 minutos que caberiam nas tradicionais duas horas - ou menos. Esse é um problema reincidente do Spielberg: ele não sabe fazer filmes curtos, eles sempre perdem o ritmo e enrolam mais que o necessário. E ele mais uma vez usa cenas bregas e apelativas. Preste atenção na cena de sexo do personagem principal com sua esposa, no final. Enquanto manda lenha, ele fica lembrando de seus problemas morais. Desnecessário. E não merecia indicação ao Oscar de melhor filme. Tanto que não ganhou nenhum dos 5 prêmios a que concorreu.

Só para comprovar minha teoria sobre o Spielberg não ter noção de tempo:

Guerra dos Mundos (ruinzinho de tudo): 116 mins. OK, está dentro do normal, mas poderia ser menos.
O Terminal (medíocre, pra mim é a versão do aeroporto de O Náufrago - e com o Tom Hanks tb!): 128 min. Normal, mas poderia ser menos.
Prenda-me se for Capaz (divertido): 141 min. Longo, poderia ser menos.
Minority Report (ruinzinho): 145 min. Longo, poderia ser bem menos.
Inteligência Artificial (ruinzinho e cafona): 146. Longo. Se não tivesse aquele final feliz babaca, teria uma hora a menos e seria legal.
O Resgate do Soldado Ryan (um dos piores dele): 170 min. Longuíssimo, tedioso e cansativo.
Amistad (razoável): 152 min. Poderia ser menor.

Eu acho que quando o filme é bom, você nem sente o tempo passar. Pode ser mais de 3 horas de filme. Mas os diretores tem de aprender a ouvir mais os editores e cortar sem dó o filme. Aí pega ritmo. Um bom exemplo de filme longuíssimo e excelente é do próprio Spielberg: A Lista de Schindler. Tem 190 minutos, mas vale a pena.

Filme altamente indicado

"Quem somos nós?" (2004)

Caralho. Nunca vi um filme como esse. Mistura documentário com drama e comédia e animação.

A tradução ideal do título "What the #$*! Do We (K)now!?" seria "Que porra nós sabemos?". O filme trata nada mais, nada menos que de física quântica.

É pra quem gosta de pensar sobre as questões básicas: "De onde viemos?", "Para onde vamos?", "Pq estamos aqui?", "Qual o sentido da vida?".

Tudo contado de forma leve, com uma história intermediando as explicações dos Ph.Ds. Um bando de cientistas malucos.

Explica sobre átomos, sobre o que é a realidade, sobre emoções no nível físico. Sobre o que são os pensamentos, o que é o universo, o que é a vida. Sobre as infinitas possibilidades que a vida nos oferece. Ou que ela tem.

Eu parei para pensar. E acho que esse filme mudou a minha vida. Vi uma vez, mas vou ver outras, pois acho que tenho muito o que aprender com ele. Veja se você é um ser pensante.

Filmes

"Nanny McPhee - A Babá Encantada" (2005)

Encantador roteiro de Emma Thompson. Direção com cara de conto-de-fadas de Kirk Jones. E as sete crianças estão muito bem. Para ver sem preconceitos.

"Veludo Azul" (1986)

Mais um do David Lynch. E ele não é tudo isso como falam, mas dá para começar a perceber (depois de assistir à primeira temporada de "Twin Peaks" e aos filmes "O Homem Elefante" e "Cidade dos Sonhos") que tem estilo próprio. E esse estilo não é muito atraente para mim, mas não chega a me afastar do diretor.

Em alguns momentos ele tenta parecer o Hitchcock (que eu amo), e não funciona. E tem temas que ele gosta de repetir (assim como atores), como locais (cidade que vive de extração de madeira) e até inserções musicais.

Atenção para a atuação de Dennis Hopper, como o malvado Frank. Excelente.

Política
Leia aqui o esclarecedor texto da "Folha de S.Paulo" sobre a promiscuidade entre deputados e empresas. Ou, em português claro, deputados que receberam doações para defender interesses dos doadores.



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